Depois…

DEPOIS…. de nosso segundo encontro, em Londres, voltamos a nos ver na itália. Eu fazia um curso na universidade de Perúgia e trabalhava para Franco Fontana, que fazia produções com artistas brasileiros na Europa. Franco pagava minhas despesas de viagens, hotéis e um pequeno salário. Eu nem reclamaria por salário: estar perto dos meus ídolos, orientá-los, acompanhá-los, ser interprete deles já era recompensa mais que suficiente. Vinicius e eu voltamos a nos encontrar e, já nessa ocasião, pintou um clima.

Depois fui morar em Paris para “afinar” o meu francês. Ainda prestava serviços a Franco Fontana, acompanhando artistas na França. Vinicius, já separado de sua oitava esposa, a argentina Marta, fazia shows na França e havia levado com ele sua filha Georgiana. Íamos em bloco para todo lado. Desde a chegada dele ficamos juntos de um modo diferente. A filha dele e Miúcha logo perceberam que o grande amoroso partia para outra viagem sentimental.
Decidimos viver juntos. Era 1978.

Segundo encontro

Meu segundo contato com Vinícius foi em Londres, em 1974. Eu morava no norte da Inglaterra, em Barrow-in-Furness, mas passava uns dias na casa de meu irmão Paulo (na época, subgerente do Banco do Brasil em Londres), na Basil Street, próximo à Harrods.
Antonio Olinto, nosso adido cultural,  e sua mulher, Zora Seljan, mantinham um relacionamento cordial com Paulo e sua mulher, Maria de Lourdes. Por isso, convidou-os para um jantar que ofereceriam para um grupo de brasileiros, e meu irmão pediu a Olinto para me levar. Estavam lá Jorge Amado e Zélia Gattai, Vinícius e Jesse (então sua mulher), e Calasans Neto e Auta Rosa. Jorge ia lançar a versão em inglês de seu Tereza Batista cansada de guerra e Calasans fazia uma exposicão em Londres das lindas gravuras que ilustravam o livro. 
Vinícius na época também morava em Salvador. A convite dos amigos, incorporou-se ao grupo de viajantes. Vinícius tinha morado na Inglaterra e nutria grande carinho pelo país.
Voltei a encontrá-lo no dia seguinte, na exposição de Calasans na Embaixada. Também foram Paulo, Maria de Lourdes, suas filhas Karla, Gisella e Thais, e as filhas de Luizinho, Marta, Cecília e Adriana, que haviam vindo comigo de Barrow.
Naqueles dias ainda nos encontramos em Londres, umas duas vezes. Essa pequena temporada compõe meu segundo encontro com Vinícius. 
 
Até os próximos encontros. 

Primeiro Encontro

Eu havia terminado o curso no Centro Educacional, uma escola modelar de Niterói (era da turma de Jorge Roberto Silveira e conterrânea de Ricardo Boechat), e ingressara no curso de letras da Universidade Federal Fluminense (UFF). Meu primeiro encontro com Vinícius deu-se

Em 1972, quando ele fazia o circuito universitário e se apresentou na Faculdade de Direito de Niterói. A niteroiense Marília Medalha, de cujo irmão, Chico, eu era amiga, participava do show. Levada pelo Chico, enfiei-me no bloco no bloco dos poetas e saímos todos, depois do show, para um jantar na casa dos pais de Marília. Na época ainda não havia a ponte. Ao final do jantar, ofereci-me para leva-los às barcas, para a volta ao Rio, no fusquinha de mamãe, levei-o embevecida, flutuando.

De volta à minha casa, confidenciei a Liddy:

– Mamãe, se eu vier a me casar um dia, será com Vinícius de Moraes.

Ela quase desmaiou. Mas achou que era brincadeira…

Anos depois, quando já estávamos juntos, perguntei a Vinícius se ele lembrava daquele primeiro encontro, tão marcante para mim.  Claro que disse sim. Mas não creio que tenha ficado em sua memória, com a quantidade de tietes que, como eu, borboleteavam em torno dele e abordavam-no em todo lugar.       

No próximo Post, “Segundo Encontro” em www.rioinformal.com/Gilda Mattoso

Lula Queiroga

Lula Queiroga é, desde os anos 80, um dos compositores mais criativos de nossa MPB.  Nascido em Recife, em 1960,  Lula participa de várias manifestações culturais de sua cidade, projetos multimidia, filmes, saraus, etc…  Ele nunca quis sair de lá e seu primeiro trabalho que já o projetou no eixo RJ/SP foi o disco ¨Baque Solto¨ que ele fez em parceria com seu conterrâneo Lenine. Logo tiveram músicas gravadas por Elba, Geraldo Azevedo, Alceu Valença e mais adiante Pedro Luis, Paulinho Moska entre outros.
Lula está por aqui novamente nos brindando com seu novo CD/show que tem o sugestivo título de ¨Aumenta o sonho¨. Ele faz dia 9/5 apresentação única no Teatro Ipanema, dia 10 no Distrital(BH)com participação de Pedro Luis e dias 11, 12 e 13/5 no Sesc Santana com participação especial de Marcelo Jeneci, Pedro Luis e Roberta Sá respectivamente.
Lula fez no dia 7/5 um sarau com leitura de suas letras e poemas no Gabinete de Leitura Guilherme Araujo, point em Ipanema que honra o nome de seu ilustre habitante pois é lugar de manifestações culturais as mais diversas. (por www.rioinformal.com/gilda-mattoso/)

Antonioni ¨Visione del silenzio…¨

Gilda Mattoso: Música

Caetano Veloso, como é do conhecimento de muitos, é um apaixonado por cinema em geral e por cinema italiano em especial.  Mais particularmente ainda, por Fellini e Antonioni.
Nos anos 1980 teve o privilégio de conhecer Antonioni aqui no Rio na casa de Julio Bressane.  Encontrou-se novamente com ele em outra ocasião, na casa de Cacá Diegues.
O emblemático diretor correspondeu ao seu carinho e recomendou-lhe que quando fosse a Itália, não deixasse de procura-lo.  E assim passamos a fazer: para todos os shows em Roma, Enrica e Michelangelo eram convidados mais que especiais.
Em 2000, para seu CD Noites do Norte, Caetano compos uma canção com o nome do diretor e escreveu a letra em italiano que diz:
Visione del silenzio
Angolo vuoto
Paggina senza parola
Una lettera scrita sopra un viso
Di pietra e vapore
Amore
Inutile finestra(Visão do silencio/Angulo vazio/Pagina sem palavra/Uma carta escrta sobre um rosto/De pedra e vapor/Amor/Inútil janela)
É a cara dos filmes de Antonioni.  Mandamos logo a gravação para ele soubemos por Enrica que ele ficou profundamente tocado com a homenagem.  Pois bem, não por acaso, Caetano foi indicado para receber o prêmio Michelangelo Antonioni, dado por um grupo de intelectuais e artistas italianos, amigos do diretor, que formam uma confraria chamada Kybalion.  Na edição anterior, haviam contemplado o coreógrafo japones Kasuo Ohno.  A entrega do premio acontece sempre em data próxima ao aniversário de Antonioni(29 de Setembro) e o premiado deve fazer uma apresentação ou uma exposição de for artista plástico.
Fomos para a Italia uma semana antes da entrega do premio e nos instalaram num hotel antiquíssimo e pitoresco chamado Il Vecchio Molino, localizado entre Assis, onde aconteceriam a entrega e o show de Caetano e Trevi, cidade onde Enrica e Antonioni tem casa de campo.  Nossos anfitriões foram Marisella e Alberto Zanmatti, ela jornalista e apresentadora da RAI e ele, arquiteto renomado.  O casal também tem casa na região e os 2 são amicissimos dos Antonioni e fazem parte da tal confraria que escolhe os premiados.  O prêmio, uma escultura do artista norte americano Sol Lewitt, também amigo da turma toda.
Mal chegamos ao hotel, Caetano subiu para descansar e eu fiquei conversando um pouco com Marisella que logo me mostrou um plano para nossa estada com eles.  Arrepiei-me, pois a programação começava quase todos os dias as 11 hs.  Delicadamente, expliquei-lhe o problema da insônia de Caetano, sobretudo quando não está em casa, depois de uma viagem de avião, com frio, etc… Que esse problema vinha da infância como me explicara sua mãe, dona Canô.  Enfim, falei-lhe que o dia de Caetano começava – com boa vontade – lá pelas 15/16 hs.  Ela disse que não tinha problema mas que queria então que eu fosse almoçar na casa deles para conhecer melhor seu marido Alberto.  Como de hábito, deixei um bilhete sob a porta do quarto de Caetano com todos os telefones de contato e dizendo meus passos para ele, caso precisasse de mim.   Mal saímos do hotel, já na estradinha, tocou o celular de Marisella.  Era Caetano dizendo que tinha resolvido nao dormir e que queria ir conosco.  Fiquei surpresa.  Demos meia volta e fomos busca-lo.  Lá chegando, pedi a ele que confirmasse o que eu dissera, para ela não pensar que eu era louco ou mentirosa.
Antes de chegarmos à charmosa casa dos Zanmatti, ela passou num dos lugares mais lindos que já vi em minha vida:Le Fonti del Clituno, ume espécie de lago formado pelas águas do rio Clituno, cheio de plantas aquáticas e cercado de salice piangenti(salgueiros chorões, árvore linda de nome igualmente lindo nas duas línguas),  No caminho, Marisella foi log dizendo que não havia feito nada de especial para o almoço.  Disse aela que isto é o melhor da Itália.  Alberto, o marido, era tão simpatico quanto ela.  Instalamo-nos e fui ajuda´-la a por a mesa.  Ela foi ao jardim, e recolheu ervas perfumadíssimas que jogou numa panela com o melhor azeite do mundo.  Na entrada de Trevi, há um portal de cerca viva feita de oliveiras onde se lê: Trevi, la capitale del olio(a capital do azeite).  Misturou a massa caseira com os temperos e nos serviu acompanhada de uma salada também feita com produtos do seu quintal.  Foi uma refeição simplíssima mas dos deuses.
NO dia seguinte, a programação tinha uma sessão do filme de Antonioni ¨Passageiro, profissão repórter, cópia restaurada com um magistral Jack Nicholson, que iam passar no Teatro Municipal de Trevi.  Caetano assistiu ao filme emocionado, sentado ao lado de Antonioni e Enrica.  Depois jantamos num restaurante simples e delicioso a beira do rio Clituno.  NO dia seguinte seria o almoço de aniversário de Antonioni em casa deles.
Lá chegando, casa simples e linda cercada de muito verde. havia uns barmen no jardim preparando caipirinhas para convidados seletíssimos, entre os quais o impagável Tonino Guerra, roetirista de filmes do diretor e também de Fellini e de outras feras.  Tomei a caipirinha e pensei que fosse uma sutil homenagem ao premiado do ano.  Mas ao nos sentarmos à mesa(eram 2 mesas de 16 lugares cada uma cabeçeira ocupada por Antonioni e outra por Enrica) havia um menu, impresso, personalizado, com capa dura forrada de seda verde e numerado, um para cada convidado(guardo o meu avaramente!!!)Nele se lia: pranzo di Gala per Caetano Veloso, a casa de  MIchelangelo Antonioni, no dia do seu aniversário.  Trevi, 29 de Setembro, de 2001.)
Portanto, muito mais do que apenas as caipirinhas, o almoço era também todo em homenagem a Caetano.  Foi um banquete daqueles.  Depois fomos par ao hotel descansar pois à noite aconteceria o show em Assis.  O espetáculo foi muito emocionante, pois Caetano misturou suas cançoes com algumas italianas com Luna Rossa(clássico napolitano de V. de Crescenzo e Antonio Viscione), ¨Come Prima¨(Domenico Modugno e Tony Dallara) e naturalmente a sua Michelangelo Antonioni¨  O homenageado foi as lágrimas bem como quase todos na platéia.
Na fim da apresentação, para não forçar Antonioni que estava debilitado por conte de um derrame que afetou também – e sobretudo- a fala, Caetano desceu à platéia para receber o rêmio das mãos dele, de joelhos a seus pés num gesto de grande elegância e humildade.

Scroll Up