Eliana Mora. Foto de Ana Maria Mendes Másala

OBRAS DE ARTE E TEXTOS

Apenas um sonho. Por isso mesmo coberto de mistério. Lírico, quase espiritual. Lendário. Profundo e sensível. Obra que tonteia. Não passa sem chamar atenção. Escorre, e mostra. Algo? O quê? Não sei ao certo. Nossa própria identidade. Ou sua criação. [El, 07/11/17].

Art_Yves Tanguy

(por www.rioinformal.com/eliana-mora/)

Lina Tâmega Peixoto: uma grande escritora da literatura brasileira

Historicamente, as mulheres presentes na literatura brasileira sempre contribuíram enormemente para a cultura do país. Uma delas é Lina Tâmega Peixoto. Ela consegue se apresentar ao leitor sempre como uma escritora múltipla e vivaz. Exemplo disso é o seu último livro Alinhavos do tempo (Tagore editora, 2018).

Neste livro, encontramos palavras inusitadas e originais para falar do mundo real e do mundo dos sonhos. Alinhavando os versos com perfeição e precisão, a escritora consegue a difícil proeza de unir o concreto e o abstrato em imagens insólitas. Lina Tâmega Peixoto nesta obra consegue fazer do simples algo extraordinário, carregando o teor simbólico da profundidade linguística. Vejamos os versos de um dos poemas do livro, “O leque de concha”: “A manhã agita/castanhas pétalas de rugas/e a tarde que desfolha/veste o vento por dentro do leque”. Aqui, com linguagem metafórica e surpreendente, a autora consegue reconstruir a passagem do tempo.

Lina Tâmega Peixoto

Essa capacidade única vem de toda experiência de uma excelente vida acadêmica. Nascida em Cataguases (MG) e considerada uma verdadeira dama da literatura nacional, Lina é consagrada e elogiada por importantes nomes da nossa literatura. Intensamente poeta e destacada crítica literária, fundou juntamente com Francisco Marcelo Cabral a revista Meia-Pataca (1948-49), importantíssima publicação no cenário nacional da época.

Chegou a assumir o magistério no Instituto de Letras da Universidade de Brasília. Lá, ministrou disciplinas como Teoria Literária e Língua Portuguesa. Sua fortuna crítica é admirável. Como exemplo, temos a opinião de um dos mais respeitáveis poetas do país, Carlos Drummond de Andrade. Comentando sobre o livro Entretempo (1983), ele disse: “Ela contém a dose de mistério essencial à boa criação lírica e, ao mesmo tempo, é documento de rara sensibilidade humana”.

Realiza pesquisas em Lisboa sobre as raízes do lirismo peninsular, dando como resultado em várias vertentes de estudos literários. Destacam-se, neste momento, pesquisas sobre a poesia de Cecília Meireles. Professora, poeta e crítica de literatura, tem artigos, ensaios críticos e poemas publicados em jornais e revistas do país e de Portugal. Participa de inúmeras antologias poéticas. É membro fundador da Associação Nacional de Escritores (ANE) e pertence à Academia de Letras do Brasil e ao PEN Clube do Brasil (RJ). Como pesquisa recente dela em crítica literária, temos: “O simbolismo imaginário e o devaneio amoroso na poesia de Maria Braga Horta”, em Revista da Academia Mineira de Letras, volume LXXXIV, 2016.

Toda essa vivência – o magistério, a pesquisa, a crítica e a literatura – é transmitida em suas obras, traçando o caminho da beleza inaugural por meio das páginas de suas obras. É uma autora que domina a arte da palavra em várias vertentes. Dessa forma, Lina Tâmega Peixoto, nome literário de Lina Tâmega Peixoto Del Peloso, é uma mestra das letras que tece com encanto a rede das palavras.

De Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ)

(Joyce Nogueira -Assessora de Imprensa, joyce@drumond.info)

(Por www.rioinformal.com/alexandra-vieira-de-almeida/)

Sob o sol de São Cristóvão

                              Para Gisela Reis

 Sob o sol
a sombra se domestica naqueles trilhos

A passagem do trem é vasta
como o oceano de meus desejos

Nos trilhos de São Cristóvão
a sombra se esfacela em migalhas
Multiplica-se
sob o sol dos caminhos – o descaminho

São visões de mil sombras
um pesadelo leve como as plumas do pavão

Um sol se cria ali, sobre seu chão, sua terra
que acolhe a pisada de seres em atropelo

Pressas se resgatam, memórias me invadem
A amizade se fundou ali
sob o sol da ferrovia
em que mato as utopias de um amanhã desnudo

O presente, na prece de uma sombra fugaz
sob o sol de São Cristóvão.

(Por www.rioinformal.com/alexandra-vieira-de-almeida/)

A Elegância do Artefato

Ela se demora observando as chiques vitrines de celulares na loja especializada em Informática.  Depois de muito indagar sobre o desempenho dos dispositivos e se encantar com o azul perolado de um deles, aponta-o como seu escolhido.  E pede um exemplar para sair na hora, pelos corredores do shopping, favoritando seus contatos e fotos.

A malha digital de que dispomos hoje se estica favoravelmente a todos os gostos.  Porém, não se enganem, não é o dispositivo que está sujeito ao indivíduo, mas o indivíduo é que, em verdade, traduz-se hoje em um escravo dos gadgets. 

O casamento homem-máquina vai bem, obrigada. Aliás melhor do que muitos casamentos entre humanos mundo afora.  Poderia ser feita uma pesquisa comparando o crescimento dos divórcios e separações com o desenvolvimento tecnológico dos smartphones.  O risco de que estejam crescendo nas mesmas proporções é grande. Enquanto o convívio pessoal exige esforço, dedicação e carinho, relacionar-se com e através da máquina é um passatempo que demanda, no máximo, certo zelo para que não caia no chão, na água ou nas mãos de um pickpocket.  De resto é uma opção quase que óbvia nesses dias de tanta informação e tão pouca profundidade.

A identidade contemporânea parece estar, cada dia mais, intrincada com uma cultura virtual.  Seja pelas medias sociais, pelos canais individuais e coletivos que proliferam como moscas ou pelas plataformas de informações frequentes e instantâneas, viver em consonância com a múltipla oferta tecnológica se constitui em uma nova forma de realização e felicidade.   São milhares de estudos de casos e sobre os quais as academias de todo o mundo se debruçam.   A teia não encolhe.  Antes tece novas e novas redes que se imbricam em torno de um sujeito tão poderoso quanto estereotipado.

Taí o século XXI que não nos deixa mentir.  Um amálgama de questionamentos e reflexões para muitas e muitas noites frias regadas a queijos, vinhos e discussões filosóficas.  Para fazer a história fluir e influenciá-la a, de repente, parar e olhar em volta. Como a madame do dispositivo perolado.

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

Eliana Mora. Foto de Ana Maria Mendes Másala

OBRAS DE ARTE E TEXTOS

Ancorado? Ou meio perdido, sem querer? A beleza e o tipo diferente da embarcação nos fazem querer saber…mas vale mais imaginar, mesmo. Acabou o tempo? O espaço? Alguém precisou descer na praia? [um filme de suspense pode começar assim!!] Somente um desejo interno do artista iria nos dizer. Ou não. É melhor imaginar, e se sentir ali, nem que seja por alguns instantes. A resposta “is blowing in the wind”. [El, 11/11/17]

Art_Isaac Levitan

 

(por www.rioinformal.com/eliana-mora/)

Agora, 14 de novembro, Márcio Catunda se apresenta em Madrid

Márcio Catunda
Márcio Catunda: Ah! Os Poetas!

El próximo 14 de noviembre, a las 19:30 hrs., en el Café Comercial de Madrid (Glorieta de Bilbao, nº 7), se presentará el nuevo poemario del escritor y diplomático brasileño Márcio Catunda (Fortaleza, 1957): Contemplaciones, publicado bajo el sello de Ediciones Vitruvio como el número 397 de su prestigiosa Colección “Baños del Carmen”. Además del autor, participarán en el evento, con sus palabras introductorias, los poetas Pablo Méndez -en calidad de editor- y Raúl Nieto de la Torre.

En esta nueva obra de su autoría -tercero de sus trabajos que ve la luz en el presente año 2013, tras Paisajes y leyendas de España y Días insólitos-, Márcio ha tenido la amabilidad y generosidad de incluir un retrato lírico a mí dedicado. El poema “Antonio Daganzo, el sobreviviente”, que a continuación reproduzco -y por el que le expreso mi profunda gratitud-, encontró su inspiración directa en la lectura del tercero de mis libros, Mientras viva el doliente, de 2010.

ANTONIO DAGANZO, EL SOBREVIVIENTE

“Al niño, cuyo temprano sufrir atragantaba,
se despeja un cielo de deslumbramiento.
Imaginaba el estandarte final de la refriega.
El miedo enajenado que vulnera
le provoca ansia de desvelar
el misterio de sí mismo.
La vida empecinada se abrió paso al futuro
y el vacío se llenó de astros y angostura.
La nada sempiterna en cada gozo
le hace aprender del aliento.
Encomendarse a las constelaciones
y llevar en su frente el desenfreno de vivir,
en vez de imaginar el estandarte final de la refriega.
Pide al alma la tentación enardecida.
Pone la esperanza en una paz sin temor vano
y la vida se le antoja una madrugada
en la cima indescifrable del tiempo.”

No próximo dia 14 de novembro, às 19:30 hrs., no café comercial de Madrid (Mirante de Bilbao, N º 7), será apresentado o novo poemas do escritor e diplomata brasileiro Márcio Catunda (Fortaleza, 1957 ): Contemplações, postado sob o selo de edições vitrúvio como o número 397 da sua prestigiada coleção “banhos do Carmen”. além do autor, participarão no evento, com suas palavras introdutórias, os poetas Paulo Méndez-na qualidade de editor – e o Raul Neto da torre.

Nesta nova obra de sua autoria-terceiro de seus trabalhos que vê a luz no presente ano 2013, atrás de paisagens e lendas de Espanha e dias insólitos -, Márcio teve a gentileza e generosidade de incluir um retrato lírico a mim. Dedicado. O poema “Antonio Sines, o sobrevivente”, que em seguida reproduzo-e pelo qual lhe expresso a minha profunda gratidão -, encontrou a sua inspiração direta na leitura do terceiro dos meus livros, enquanto viva o enlutada, de 2010.

Antonio Sines, o sobrevivente

” ao menino, cujo cedo sofrer detestava,
Se limpa um céu de brilho.
Eu imaginava o estandarte final da luta.
O medo alienado que desrespeita
Lhe provoca ânsia de desvendar
O mistério de si mesmo.
A vida adormecida se abriu passo para o futuro
E o vazio se encheu de astros e angostura.
O nada eterna em cada gozo
Faz-lhe aprender com o fôlego
Confiada às constelações.
E levar na sua frente o deboche de viver,
Em vez de imaginar o estandarte final da luta.
Pede à alma a tentação enfurecida.
Coloca a esperança em uma paz sem temor vão
E a vida se lhe apetece uma madrugada
No topo indecifrável do tempo.”

Márcio Catunda com seus Haicais…

1

Os sinos da catedral
Cantam o meio-dia.
Depois, silenciam.

2

O ashram está em mim mesmo.
O satori é agora
Em pensamentos sucessivos.

3

Começa a chuviscar.
O guarda-chuva me anima
A seguir em frente.

4

O rio instila em mim
O frescor das águas
Que vêm nas ondas da tarde.

5

Os barcos vão e vêm
Na viagem circular
Da existência de tudo.

6

Para preencher as horas,
Que música existirá
Quando não houver mais dia?

7

Véu de chuva no céu.
Como desvestir-se
Do hábito de viver?

8

Em diversas direções
Riscam o céu
Os aviões.

9

Alta maré
No sonho da onda.
Desperto, sobressaltado.

10

As janelas dos prédios.
A tarde azulada.
O encanto de estar só.

11

Tarde de nuvens sombrias.
Silêncio nos ramos verdes.
Brisa do anoitecer.

12

Acima dos telhados,
Sem teto nem chão,
A casa do imponderável.

(por www.rioinformal.com/marcio-catunda/)

Eliana Mora. Foto de Ana Maria Mendes Másala 

SENSAÇÕES PARABÓLICAS

 

A luz do porto
parece que me hipnotiza
fica parada
com pensamento fixo
e ali
toda minha vida
armazenada num container
se esconde da luz
.
E o porto
impávido
continua a deslindar

segredos

.
______*
Eliana Mora, 01/11/2018

/Art_Vincent-Van-Gogh

(por www.rioinformal.com/eliana-mora/)

 

Visita de Fã

Márcio Catunda
Márcio Catunda: Ah! Os Poetas!

Estilo bastante comum em poesia e tem certa tradição que vem dos modernistas. Oswald de Andrade gostava. Francisco Alvim é um continuador. Gente de alto nível exemplifica o modelo.

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VISITA DE FÃ

Fui à Urca e toquei a campainha da casa do grande astro da música.
– Quem é?
– Quero falar com o Roberto.
– Que é que cê quer com Ele?
– Vim buscar o calhambeque pra dar uma volta na Estrada de Santos a 100, 150, 200 por hora, bicho!

*—-

Márcio agradece, gentil e em verso,  a Rio Informal: 

“Grato pelo sempre generoso interesse pelos meus descosidos”

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