EUROPA:  UM NOVO (VELHO) CONTINENTE A DESCOBRIR

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

Quem mora em Portugal passa férias em todo lugar da Europa, já que é tudo muito perto e os voos low-cost abundam, principalmente no verão.  Na verdade a Europa quase que cabe no Brasil.  E é por isso que a gente vê tanto trânsito de gente por aqui.

Morar em Lisboa e passar as férias no Algarve, região sul do país povoada por praias maravilhosas e hordas de turistas, é como morar no Rio e fugir para a Região dos Lagos nos feriadões.    Desce-se um pouco mais e cruza-se a fronteira com a Espanha, mais precisamente a região da Andaluzia.  Ali estão lindas cidades para visitar e conhecer um pouco da história da ocupação árabe na Península Ibérica, durante a Idade Média.

As belas e ótimas estradas de Portugal e Espanha convidam a alugar um carro e dirigir.  Até Granada, última cidade a ser retomada pelos reis cristãos, a distância é um pouco maior do que do Rio a Belo Horizonte.  Embora próximos, porém, os dois países guardam diferenças profundas, a começar pelo idioma, claro.  Cruza-se a fronteira e começa-se a falar espanhol.  Ao fuso horário acrescenta-se uma hora.  A gasolina fica mais barata (1,46 para 1,36 euros, em média).   O calor aumenta, e muito. Estamos mais perto da África e do deserto do Saara. 

Nas cidades alguns contrastes são notórios. Já não se pendura roupas nas janelas e varandas como em Portugal, a gastronomia abusa dos hamones e tapas, as ruas parecem mais limpas e a urbanização muito organizada. É claro que estamos falando de cidades turísticas como Sevilha, Granada e Córdoba, mas creio que em toda a região da Andaluzia o quadro seja semelhante.  O fado ficou para trás e agora o que se ouve é o flamenco. A noite só chega às 22 h. Jardins floridos circundam os castelos mouros, fontes e chafarizes adornam as praças, os pisos das ruas brilham e o povo bebe sangria supergelada em bares lotados.   É lindo de se ver e passear.  Em alguns pontos encontra-se comida até mais em conta do que em Lisboa, capital que realmente está na moda, com os preços atingindo cifras estratosféricas, principalmente para alugar ou comprar um apartamento.  A Andaluzia é destino certo de milhares de turistas, mas não está vivendo o boomque Portugal ora vive.

Na Espanha os islâmicos são muito mais numerosos do que em Portugal, o que se nota pelos trajes femininos.  Mulheres muçulmanas se destacam pelos véus e roupas mais cobertas, apesar do calor, afff.  Sinto uma revolta pelas coitadas, todas encapotadas enquanto seus maridos usam bermudas jeans.  Enfim, faz parte da cultura deles.  Outro dia até achei interessante ver três delas sozinhas em uma mesa de bar, à conversa solta.  Mas não estavam bebendo álcool, somente suco ou refrigerante.  Ainda há muito o que refletir sobre essa religião que a gente tem que respeitar, sim, mas que não se deixa de questionar os dogmas.

Enfim, pra quem já está estabelecido em Portugal, trabalhando ou estudando como eu, vale a pena dar uma descida às cidades da Andaluzia.  É perto, pode-se ir gastando pouco e o banho de cultura que se toma é inquestionável. De volta às terras lusitanas, já estava com saudade desse sotaque português do PT.  E de um verão mais ameno.  Até a próxima, castelhanos!

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Cristina Lebre é autora dos livros “Marca D’Água” e “Olhos de Lince”, à venda pelo e-mail lebre.cristina@gmail.com

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA:  ESSENCIAL PARA BRASILEIROS E PORTUGUESES

Muita gente que pensa em emigrar escolhe Portugal também pela semelhança da Língua.  Parece que falar o mesmo idioma pode deixar tudo mais fácil. Parece. Nem sempre nos entendemos.  

Há algum tempo venho recolhendo palavras, expressões e gírias faladas aqui, e seus similares no Português do Brasil.  Sim, essa é uma das primeiras diferenças que compreendi depois que atravessei o oceano. Existe o Português de Portugal e o Português do Brasil.  E há diversas ocasiões em que eles são muito, muito diferentes. A ponto de não se entender nada mesmo. É interessante. É cultura. É conhecimento.

O Português português não adota consoantes juntas, a não ser que ambas sejam pronunciadas.  Assim, “aspecto” por aqui é “aspeto”, “perspectiva” é “perspetiva” e “recepção” se escreve e se fala “receção”.  Em outros casos foi o Português brasileiro que retirou as ditas cujas, como em “fato”, que para o lusitano continua sendo “facto”, e “indenização”, que por aqui permanece “indemnização”. Por que?  A gramática e as culturas guardam mistérios que só a gente estudando muito, e às vezes nem assim conseguimos dominar a dinâmica de cada povo.

Assim, quem está vindo morar em Portugal deve ir guardando algumas dicas de gírias e expressões que podem ajudar a não ficar à deriva em um diálogo:  “banheiro” aqui é “casa de banho”, “ônibus” é “autocarro”, “celular” é “telemóvel”, “vitrine” é “montra”, casca de pão é “côdea”, “digitar” é “primar” e “tomada”, de eletricidade, é “ficha”.  “Autoclismo” é descarga de vaso sanitário, e “ao vivo” é “em direto”.

Há também gírias muito faladas que podem ser surpresas para os brasileiros recém-chegados.  “Todo mundo” pra nós é “toda a gente” pra eles,“mouse” para nós é “rato” pros portugueses (aliás, muito mais certo do que ficar usando palavras do inglês) e “muito legal “ é “giro”.

Embora os portugueses, muitas vezes, “comam” as últimas sílabas, e a pronúncia do brasileiro pareça mais correta, a conjugação dos verbos do Português de Portugal parece mais literal e bonita.  Pois não é muito mais belo dizer “estou a escrever” do que “estou escrevendo”? O infinitivo é, definitivamente, bem mais elegante do que o famigerado gerúndio. E não há professor que discorde, nem muito menos linguista.

Bem, esses são apenas alguns exemplos de diferenças entre o Português brasileiro e o português.  Talvez caibam outras colunas a apontar mais “traduções” de Portugal para o Brasil e vice-versa. Porque a linguagem é um instrumento vivo, operado por seres humanos, em lugares e modos de vida distintos.  E é bonito de se ver, ouvir, e falar. Como gente a brilhar, não a morrer de fome.

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Cristina Lebre é autora dos livros “Olhos de Lince” e “Marca D’Água”, à venda diretamente pelo e-mail lebre.cristina@gmail.com

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

SOMOS TODOS UM

Em uma repartição pública centenas de pessoas se aglomeram à espera de atendimento. Idosos aqui não têm prioridade, a não ser que comprovem sérios problemas de saúde. Os pais com bebês passam na frente. Grávidas são raras. O resto, verdadeiramente, acampa nesse templo da burocracia. Trazem suco, sanduíches, biscoitos, e celulares com bateria cheia, é claro. Vai demorar um pouquinho…

Pela primeira vez na vida experimento a sensação de ser imigrante. Não chega a ser um “big deal” por conta da língua materna, que é a mesma. Entretanto, quantas diferenças! No Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) os estrangeiros são tratados meio que como boiadas. Há funcionários super simpáticos e carinhosos, e outros que dão um fora na gente sem titubear. É uma questão de sorte…

Ao imigrante é dado o direito de passar horas aguardando sua senha aparecer na tela. Para que ele conquiste o título de residência com nome, foto e número, vale a pena a espera. Bizarro é o estado. Dominador o sistema.

Moro atualmente em um bairro de Lisboa que, segundo o último Censo, concentra 80 nacionalidades diferentes. Uma verdadeira Babel. Você sai na rua e ouve pessoas conversando em Inglês, Francês, Alemão, Italiano, Português, Espanhol, Chinês, Nepalês, Paquistanês, Crioulos, e outros idiomas e dialetos. A sensação é de, verdadeiramente, estar no centro do mundo, onde todos transitam e muitos habitam. Lisboa hoje é uma cidade extremamente cosmopolita, para alegria dos que chegam e conseguem se integrar ao país, e a antipatia de muitos nativos que preferiam a tranquilidade dos tempos idos.

Viver um tempo na Europa é, muitas vezes, sui generis. As pessoas vão passar o fim de semana na Espanha como nós no Rio vamos para Cabo Frio. É tudo muito próximo e misturado. Diásporas constantes movem esse continente em uma dinâmica elétrica e relativista. Portugal é um país que recebe a todos sem distinção, bastando para isso entrar com um dos vistos previstos em lei. Não há preconceito, pelo menos na constituição portuguesa. O governo quer mais é que muita gente venha, trazendo dinheiro ou sendo mão-de-obra, já que muitos jovens portugueses emigram para países mais ricos, como Inglaterra e Alemanha. Mas não tente aplicar a lei do Gerson aqui. Se a polícia pega você é sumariamente expulso, e o castigo demora muitos anos.

Entre a burocracia que se enfrenta e a qualidade de vida que se usufrui, muitos estão preferindo encarar a nem sempre boa vontade dos “tugas”. De todo modo a experiência tem sido gratificante. Os aluguéis estão caríssimos, temos que ir morar nas periferias. Mas a liberdade de ir e vir não tem preço. Noves fora a saudade, que chega a doer no peito, é um tempo de grandes descobertas. Pra sair da zona de conforto. Pra conversar em inglês e portunhol com tantas novas amizades. Pra experimentar o gosto de passar uns dias na Itália aproveitando um voo “low cost”. É logo ali. Não passa nada. A vida é pra ser aventurada.

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Cristina Lebre é autora dos livros “Olhos de Lince” e “Marca D’Água”, à venda diretamente pelo e-mail lebre.cristina@gmail.com

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

Desassossego

“Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contem raciocínios, a minha emoção não contem emoções.  Estou caindo, depois do alçapão lá de cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia.  Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem a roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais gyro que águas boiam todas as imagens que vi e ouvi do mundo – vão caras, casas, livros, caixotes, rastros de música e syllabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo. “Fernando Pessoa, em “O Livro do Desassossego”.

Penso sempre, sinto sempre e fico a admirar a capacidade de descrever o desassossego da alma como Pessoa o fez.  A alma agoniza na correnteza complexa dos sentimentos, emoções e raciocínios que perseguem o poeta.  Modo de vida, duelo de pensamentos.  E assim compartilho o desassossego meu de um dia:

DESASSOSSEGO

A vida é um poema. Longa e difusa poesia

imersa em fusos, rimas, versos e prosas

paixões e lamentos.

Um aeroporto,

onde habitam abraços de boas vindas

beijos molhados de lágrimas,

e doloridas despedidas.

Rotinas e sustos

enredos, enlaces,

e curvas fechadas, crepúsculos coloridos,

e chuvas que parecem eternas.

A vida é uma lira

três, cinco, sete notas,

refrões e desatinos,

pausas e retomadas,

ópera inconclusiva.

Viver é nada além de atravessar

estreitos fachos de luz a adornar

o contorno de corpos;

a alegria do levantar de copos

o desespero da fome

e da partida:

o amor, tragédia inequívoca,

o encanto, esse brilho que um dia

acarinha os olhos.

A vida é um filme

um longa na grande tela

um caminhar pelo deserto

a enfrentar perigos

e aproximar presenças.

Viver é esperar Sua volta

te ouvir no grito da gaivota

te ver no pavor do parto.

Um livro

feito de capítulos inacabados

obra perfeita em suas contradições

e dias sempre diferentes.

Como o sol sucede a chuva

a morte sucede a vida

que se esvai pela correnteza

e clama por novos começos

lisos dorsos, nascimentos.

Sucessão de páginas que viram e formam

roteiros nem sempre coerentes.

A vida é um sorriso

um aceno

um balaio de perdas

de doces adeuses

e faces tensas

ausentes na multidão.

Viagem longa, por vezes curta

voos rasantes e quedas plenas

e dores, tristezas,

e demorado gozo

e espalhafatosas gargalhadas.

Grande e pequena

a vida é ilusão

um truque de mágica

um jogo de azar

um braço estendido

e mãos fechadas;

um veneno que mata

todos os dias

em doses pequenas

disfarçado de açúcar.

@CristinaLebre – 10.02.19

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

A Elegância do Artefato

Ela se demora observando as chiques vitrines de celulares na loja especializada em Informática.  Depois de muito indagar sobre o desempenho dos dispositivos e se encantar com o azul perolado de um deles, aponta-o como seu escolhido.  E pede um exemplar para sair na hora, pelos corredores do shopping, favoritando seus contatos e fotos.

A malha digital de que dispomos hoje se estica favoravelmente a todos os gostos.  Porém, não se enganem, não é o dispositivo que está sujeito ao indivíduo, mas o indivíduo é que, em verdade, traduz-se hoje em um escravo dos gadgets. 

O casamento homem-máquina vai bem, obrigada. Aliás melhor do que muitos casamentos entre humanos mundo afora.  Poderia ser feita uma pesquisa comparando o crescimento dos divórcios e separações com o desenvolvimento tecnológico dos smartphones.  O risco de que estejam crescendo nas mesmas proporções é grande. Enquanto o convívio pessoal exige esforço, dedicação e carinho, relacionar-se com e através da máquina é um passatempo que demanda, no máximo, certo zelo para que não caia no chão, na água ou nas mãos de um pickpocket.  De resto é uma opção quase que óbvia nesses dias de tanta informação e tão pouca profundidade.

A identidade contemporânea parece estar, cada dia mais, intrincada com uma cultura virtual.  Seja pelas medias sociais, pelos canais individuais e coletivos que proliferam como moscas ou pelas plataformas de informações frequentes e instantâneas, viver em consonância com a múltipla oferta tecnológica se constitui em uma nova forma de realização e felicidade.   São milhares de estudos de casos e sobre os quais as academias de todo o mundo se debruçam.   A teia não encolhe.  Antes tece novas e novas redes que se imbricam em torno de um sujeito tão poderoso quanto estereotipado.

Taí o século XXI que não nos deixa mentir.  Um amálgama de questionamentos e reflexões para muitas e muitas noites frias regadas a queijos, vinhos e discussões filosóficas.  Para fazer a história fluir e influenciá-la a, de repente, parar e olhar em volta. Como a madame do dispositivo perolado.

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

Mensagem de Natal

O dia chegou pleno depois dessa noite de Natal.  Amanheceu como sempre.  Enquanto muita gente dormia após uma noite esticada pela ceia, os presentes, a reverência ao Deus que se fez carne em favor de nós, o sol já chegava inteiro.  E eu pensei que não há o que fazer para impedir o dia de suceder a noite, nem os segundos de pararem de passar.

Daqui a pouco a manhã já dará lugar à tarde, e a noite chegará outra vez, trazendo a escuridão e novamente o sono.  E eu me deparo pensando que não existe poder humano capaz de deter o tempo, nem as tempestades, nem o céu de se pintar de cinza ou de azul.

Por isso há que se levantar.  E por mais macias que sejam as camas, por mais quentinhas que estejam as cobertas, por mais protegido que seja o ninho, há que  ir.  Dizer não à indolência.  Clamar por coragem.  E se houver medo, ir com medo mesmo (palavras sábias de minha primogênita).

Existe gente na rua, que não tem cama, nem quarto, nem cobertas limpas.  São gente, do mesmo jeito que nós.  Sentem fome, frio, medo, angústia, desejos, riem, choram e precisam de dignidade.  Exatamente como nós. Há que se lembrar sempre disso.

Existe um saber esperando para ser descoberto, jardins para serem plantados, águas para serem canalizadas, corpos esperando abraços, sorrisos, compreensão.

E existe perdão a ser espalhado, relações a serem restauradas, uma demanda enorme de ações em cuja direção basta dar o primeiro passo.  E o segundo.  E todos os outros até chegar.

Existe amor para ser doado, desculpas para serem pedidas e ofertadas, pois nenhum de nós jamais nasceu perfeito e o único que veio mostrar a perfeição foi fustigado, rejeitado até a morte, e morte de cruz.  Quem não tem pecado atire a primeira pedra.  E o mundo terá tantas pedras quanto mais perdão for disseminado.

Os pássaros cantam sempre.  E não há rifles, balas nem bombas capazes de os fazerem calar.  A natureza resistirá , até que Ele volte, e busque Seus amados.

Quem não quer ser um deles?  Quem não quer gozar as delícias do amor do Pai?  E se não souber como é isso não importa, importa sentir os cabelos sendo acariciados pela Mão alva e entender o mais belo “eu te amo” que jamais se imaginou ouvir.

O dia sucede a noite mesmo no Natal, no Ano Novo, e em todas as festas que só terminam no meio da madrugada, essa que é criança, e que em breve dará lugar ao altivo e colorido dia, à maravilhosa, e ao mesmo tempo, ofuscante luz.

Clarice dizia que o tempo se conta em anos.  Humildemente eu digo que o tempo se conta nos voos das gaivotas e nos sons dos pássaros-cantores mais afinados.  O tempo se conta em gestos, carinhos, abraços e sorrisos.  Este nosso tempo se conta em ação.  Ação em direção ao propósito do divino em nós.  Ação em direção ao bem, à alegria e à plenitude da integração com o Deus de amor por meio do amor entre humanos.

O dia logo se tornará em noite.  E amanhã a vida continua, e o trabalho chama.  Não importa se um ente querido partiu, sempre dizemos que a vida continua, e é verdade, daqui a pouco o ápice da dor passa e a gente aprende a prosseguir.

Os poderosos arrogantes não conseguem controlar nem a cronologia do tempo nem muito menos o sol, a chuva, o calor ou o frio.

Por isso levante.  Sorria.  Saia de seu casulo e estenda seus lábios e seu corpo em direção à ação.  Até que o sono o avise que está na hora de, novamente, cerrar os olhos, aja.  Leia.  Estude.  Viaje.  Trabalhe.  Ajude.  Sorria.  Agradeça.  Confie.  Ame.  Só o que você escolhe importa.  Só o caminho que trilha dará em algum lugar, bom ou ruim.  Opte pela simplicidade.  Pela luz.  Pela pureza da criança e do animal.  Por uma varanda com plantas.

Natal é nascer de novo, e pedir a direção ao Pai.  Natal é perdão.  É saber que somos todos uma só espécie.  É entender que as diferenças foram feitas para enriquecer, nunca para separar.  É buscar o sobrenatural do amor em nós.  Feliz Natal a todos!

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

Sobre um Museu em cinzas

A língua portuguesa, uma vítima

 Hoje é sobre as letras que desejo refletir.  Há tempos observo a escrita de diversos gêneros textuais, de toda a sorte de fontes, desde textos escritos nas redes sociais, aos livros, jornais, anúncios, cartões de visita, cartazes pela cidade, outdoors e outros mais.  E afirmo que é estarrecedora a quantidade de erros ortográficos e de concordância gramatical.

Deparamo-nos, em diversos setores, com erros gravíssimos de ortografia e concordância, mesmo nas grandes cidades, nos meios mais modernos de comunicação.  Não adianta a gente zoar o “eletrecista” do interior se em um blog literário vê-se um grotesco “parabéns àtodos” !!!!!!  Observamos também um movimento infeliz no sentido de acabar com o infinitivo.  Não raro vemos as pessoas escrevendo que vão “estálá mais tarde.”

Fato é que as revisões do Google nem sempre dão conta de um texto escrito corretamente.  A língua portuguesa, como todas no planeta, é dinâmica, sim, mas isso não significa que cada um pode falar ou escrever da maneira como bem entender.  Até mesmo professores estão dando aos jovens a noção de um Português completamente corrompido pelo descaso quanto à (aqui tem crase) gramática!

Segundo o Professor Leandro Karnal, a estrutura da linguagem está sendo totalmente modificada por conta da necessidade de rapidez na informação.  Tudo bem.   O tempo, este artigo cada dia mais exíguo, decreta o fim das orações subordinadas, é compreensível.  O que não se pode é subverter a língua.  Por menor que seja a mensagem, ela deve ser escrita de forma correta.

Linguagem virtual é diferente de linguagem escrita.  O chamado “Internetês”, uma adaptação própria da língua para o meio cibernético, abrevia cada vez mais as palavras para que se possa aproveitar o máximo de tempo possível no envio de uma informação.  Assim, você vira “vc”, beleza vira “blz”, e por aí vai.  É lícito, convém que seja assim para que a comunicação seja feita de maneira célere. Assim também temos os emojis, figuras que traduzem nossas emoções para que a gente não precise descrevê-las com palavras escritas, e as hastags, verdadeiras imposições a qualquer post hoje em dia.  Aliás, a ferrramenta hastag é assunto complexo e rico a ser focalizado em estudo próprio. Na sua forma, ela resume o conteúdo de uma mensagem sem que se use nem ao menos um verbo.  Une milhões de internautas e posts sobre um mesmo assunto somente pela utilização do símbolo “jogo da velha”.  É uma fantástica ferramenta de hipertexto.  Mas isso é dentro do universo virtual.  Não se redige um comunicado, ou mesmo um anúncio, somente com o tal joguinho da velha e uma palavrinha grudada a ele.  Por mais que possa parecer enfadonho, ainda é preciso escrever.

A linguagem é um organismo vivo, ela sofre mutações constantes frente ao dinamismo da comunicação.  A questão é que, se você vai escrever, deve fazê-lo acertadamente, sem agredir o leitor e a própria língua.  O que se precisa é alocar a linguagem escrita formal e a linguagem virtual.  São ambientes distintos de escrita.

Agora mesmo recebi um e-mail pedindo oração por uma pessoa que vai fazer “seções” de quimioterapia! Quanta tragédia! Seção é um substantivo feminino, que significa parte, fatia, e geralmente é usado para denominar um lugar público, uma repartição, um departamento. Não se seciona a quimioterapia, o que se faz são sessões do tratamento.

Enfim, a situação está cada dia mais crítica, e nem o querido Português escapa.  Minha dica é que, na dúvida, consultem um revisor.  Gírias são normais em todas as línguas, e a linguagem virtual é um fenômeno riquíssimo.  Mas a escrita permanece carecendo de respeito e correção. 

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

A DITADURA DA BELEZA

Há um tempo venho me sentindo impelida a escrever sobre a vaidade. Mais especificamente acerca dessa ávida perseguição pelo corpo perfeito. Salta à observação de quem tem olhos e ouvidos mais atentos o quanto a ditadura da beleza tem tirado a paz de muitas mulheres, e também de alguns homens, diante de uma cultura diabólica que só valoriza o jovem e o plasticamente belo. Uma cultura que pode levar muita gente, literalmente, à morte.

Quem viaja por outros continentes percebe a diferença. Ainda que as pessoas estejam buscando uma vida saudável, boa alimentação, desenvolvimento sustentável e reciclagem do lixo, não se nota o desfile, pelas ruas, de homens e mulheres marombados, quadríceps acentuados, bumbuns e peitos enormes e firmes, barrigas totalmente desenhadas. As mulheres na Europa estão deixando os cabelos brancos e são naturalmente magras sem que vivam lotando consultórios de cirurgiões plásticos ou dermatologistas estéticos. Percebe-se uma sociedade mais relaxada, não no mau sentido, mas que vive em paz com seus corpos. Os próprios cabeleireiros oferecem massagens estéticas e limpeza de pele, mas não se vê uma clínica de beleza em cada esquina. O mesmo não se pode dizer com relação às americanas, de todas as origens, incluindo a asiática. Essas parecem também paranóicas com o corpo, o rosto e os cabelos de maneira doentia. Ou seja, a ditadura da beleza oprime o ser humano de modo que outros valores da vida entram em verdadeiro estado de latência.

No Brasil a cirurgia plástica ganhou fama através do Dr. Ivo Pitanguy, que tornou – se um ícone na matéria beleza. Porém, embora seu trabalho não tenha se direcionado somente nesse sentido, mas também na recuperação de queimados, de acidentados e da cirurgia reparadora, a cirurgia plástica ganhou adeptos que se especializaram na estética. Até aí tudo bem. A questão é que as décadas de novelas e estrelas lindas desenvolveram uma obsessão na mente das pessoas, principalmente dos jovens e das mulheres, em se tornarem deuses gregos.

Observa-se aí um viés na carência de educação em todos os níveis. Os mais pobres não têm tido acesso a uma educação de qualidade, e igualmente não possuem condições de bancar os custos de um personal trainer, usar centenas de cremes ou se “internarem” em clínicas com a promessa de levá-los à juventude eterna. O grande mote, então, está na educação acessível à classe média, que carece de matérias sobre respeito ao próximo e aceitação das diferenças. Não no sentido da ideologia de gênero, pois isso também já se tornou uma ditadura entre a juventude atual, uma praga que as famílias e os docentes precisam combater, mas no sentido de aumentar a segurança e a autoestima dos que estão em formação. Eu acredito que Deus fez a cada um de nós belos e perfeitos. Cada um com uma parte do corpo mais bonita do que a outra, e não há ninguém sem alguma mácula, seja física ou emocional. O grande desafio é a autoaceitação. As novelas impõem aquela beleza como a única aprovada, enquanto a educação , em muitos níveis e instituições, parece mais preocupada em difundir ideias errôneas a respeito da sexualidade e de espalhar ideologias ultrapassadas. Nas universidades públicas os marxistas insistem fazer a cabeça dos jovens. E as contradições se apresentam, claras como a neve, entre o que se prega e o que se pratica, ou seja, a hipocrisia impera.

Sem educação de base, sem a pregação de princípios e valores de amor e respeito ao próximo da forma original como cada um foi criado, sem o estímulo aos dons e às habilidades que cada um apresenta, continuaremos afundando nesse barco da inversão, da baixa autoestima, da insegurança, da perseguição frenética por algo que não se é, da falsidade nas relações. E no meio de todo esse cenário caótico de emoções e sentimentos oprimidos por ditaduras de imagens e comportamentos, os aproveitadores e falsos profetas tiram proveito. Até que um dia fatalidades acontecem.

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

Literatura na Varanda: Um projeto para todos

O Rio de Janeiro continua trabalhando e divulgando literatura. É admirável a perseverança de pessoas que de forma alguma abrem mão de produzir cultura. O projeto Literatura na Varanda, idealizado pela jornalista e poeta Tania Roxo, desperta a cada edição um interesse maior por parte do público. E neste mês, quando ele completa dois anos de existência, sua edição comemorativa homenageia a escritora e poeta Hilda Hilst.

O Literatura na Varanda teve sua primeira edição em agosto de 2016 com a proposta de reunir amigos e amantes da literatura para uma roda de conversa sobre um livro ou um autor específico.  Seu formato é ditado pela informalidade, evitando qualquer postura elitista e buscando a participação de todos aqueles que lêem, curtem ou produzem literatura.  O projeto inclui ainda espaço aberto para recital de  poesia, apresentações de música ao vivo e exposições de arte a cada edição.

Nascido, como diz Tania, “da vontade mútua de amigos de compartilharem saberes no campo literário”, o Literatura na Varanda é um espaço gratuito para todos aqueles que desejam compartilhar e saber mais sobre romancistas e poetas, fomentando o saber e o pensamento literário.

Este ano o projeto começou a abarcar eventos de lançamento de livros e exposição de arte, incluindo pintura, escultura, cerâmica, etc. É um mix de arte que só faz bem a quem comparece.  Uma proposta de encantamento com a cultura literária e artística em geral. Um momento para esquecer-se das agruras da vida e da luta pela sobrevivência e debruçar-se sobre a mágica da cultura através da literatura.

A próxima edição do Literatura na Varanda acontece no próximo dia 18 de agosto, sábado, a partir das 15 horas, no Espaço Multi,  que fica na Av. Amaral Peixoto, 96 – Sala 403 – Centro de Niterói, e a entrada custa uma “colaboração consciente livre”.  Cada um doa o que ou quanto achar que deve.  Pode levar livros, ou dinheiro, ou um instrumento, ou qualquer coisa que agregue valor à cultura. 

O evento prevê ainda a projeção de fotos e vídeos sobre a Casa do Sol, onde viveu e trabalhou intensamente Hilda Hilst durante a maior parte de sua vida, e música ao vivo.  Vale super a pena conferir.  Porque cultura é alimento para a mente e fonte de vida para a alma.  Parabéns, Tania, e obrigada por sua luta e a de todos os que colaboram para que a literatura continue sendo disseminada em nossa cidade.

(Visite Literatura na Varanda)

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

Feliz dia dos Pais

Pais de meninas; pais de meninos.  A proximidade do dia dos pais nos leva a reflexões sobre esse personagem tão importante em nossas vidas.  Poderia eu focalizar o viés comumente falado que é o aspecto comercial, mais um dia para se gastar dinheiro com presente.  Ou lembrar os pais de minha geração, homens inacessíveis e muitas vezes autoritários.  Mas prefiro discorrer sobre os papis de hoje, os meninos da geração Y que já começaram a procriar.  Eles se apresentam com um perfil quase que antagônico ao dos pais dos anos 60, 70, 80. São atores afetivos e que participam da criação de igual para igual.  Trocam fraldas, varam madrugadas insones, levam os bacuris pra escola, andam pelas ruas empurrando carrinhos e carregando mochilas. São os genitores do século XXI. 

A democracia e a luta da mulher pela igualdade de direitos refletem, finalmente, resultados positivos no comportamento da figura paterna.  Os pais de hoje cozinham, preparam o lanche, comparecem às reuniões e às festas da escola.  Conversam entre si sobre as gracinhas dos filhos, a comida predileta, o que disse o pediatra.  E tudo isso sem deixar de ser macho, o que prova que a masculinidade nada tem a ver com superioridade ou distância.

Há três ou quatro décadas os pais eram como mitos inalcançáveis.  Nós, os filhos, vivíamos imaginando o que se passava pela cabeça deles, se verdadeiramente nos amavam e às nossas mães. Suas grossas vozes nos assustavam e as ordens que davam nos metiam medo.  Se por um lado nutríamos por eles um enorme respeito, por outro éramos como pintinhos apavorados diante daquele galo enorme e imponente.

Hoje os filhos podem encontrar no colo de seus pais o aconchego que toda criança necessita.  E se por vezes observamos certos distúrbios nas questões de aproximação e diálogo, consequências de equívocos e contradições entre companheirismo e obediência, é notória a evolução nas relações em família.  Enquanto a mulher saiu de casa e conquistou o mercado de trabalho, o homem agora desenvolve a vida profissional em consonância com seu papel de pai.

É claro que não basta ser pai, tem que participar.  Mais clara ainda é a necessidade de ser presente tanto no afeto livre quanto na educação.  Inconteste, porém, é a realidade contemporânea da presença dos pais na rotina dos filhos.  E isso é motivo de celebração. 

Por isso parabéns, pais.  Pais jovens e pais que já estão velhinhos mas aprenderam a aceitar um carinho e até mesmo a chorar nos ombros de suas crias.  Porque deixar a emoção florescer não faz de ninguém menos homem, antes sobeja graça e amor.  E permitir-se soltar a sensibilidade só gera energia boa, que faz desabrochar sorrisos e felicidades.  A eles muitos presentes, sim, porque merecem nossa homenagem.  E aos filhos uma dica: aproveitem seus pais o quanto podem.  Eles são ícones no universo do  amor maior, aquele que jamais acaba.

@Cristina Lebre

(por www.rioinformal.com/cristina-lebre/)

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