Sentir é estar distraído

A atuação no teatro é chamada por muitos de jogo. Certamente, grande parte ou a maioria dos que propagam esse termo tem o conhecimento para difundi-lo, porém, muitos outros o repetem como uma vaga e leviana expressão lida na orelha de um livro. Afinal, onde o jogo e o teatro efetivamente se relacionam?  A análise deve ser mais atenta do que uma simples comparação a um “ping-pong”onde o foco ou a palavra são a bola. O material de trabalho no jogo cênico não passa exclusivamente por vias corporais ou verbais.  O presente artigo tem como objetivo propor uma reflexão sobre a relação entre o jogo e a atuação e entender como ele pode ser usado para a criação de uma dramaturgia do ator.

            O que é um jogo? Parto da premissa que o jogo é um recorte com regras claras que limitam relações voluntárias específicas onde os participantes estão ativos, física e intelectualmente, no intuito de alcançar um objetivo. Conceitos como vencer e perder podem ser deixados de lado quando não se fala em disputa. Vinculado ao teatro, o jogo, se propõe de maneira lúdica, ligar todos os participantes, estes ficam imbuídos de se conectar de tal maneira com o ato de jogar que fiquem imersos no presente, no próprio jogar, sem um vencedor ou perdedor. A partir dessa breve análise, faz-se necessário esmiuçar o jogar teatral e tentar entender como ele se aplica na prática do ator. A prática de jogos cênicos leva os participantes a uma relação com o momento presente, onde esse se dilata e o jogador se imbui apenas da ação, e todo e qualquer pensamento alheio a essa experiência abrandam. Assim, o ator/jogador entra nesse fluxo continuo de ações onde ele e sua experiência cênica se tangenciam guiando-se simultaneamente. 

O contato com o jogo ilumina a capacidade que o “jogar” traz ao ator de entender que esses caminhos propostos em cena são móveis, voláteis. Balizas ou marcos que dilatam as relações abrindo os participantes ao jogo, mesmo em zonas conhecidas, disponibilizando-os ao risco iminente de acontecimentos. No jogo teatral, o lugar apontado não é um objetivo a ser alcançado a qualquer custo, e sim uma relação a ser construída com o outro em busca desse objetivo . As balizas e as marcas são etapas do jogo, elas possibilitam que a atenção do jogador se dirija ao caminho a ser percorrido e não um lugar a ser alcançado. O entendimento dessa relação com as marcas possibilitam uma escuta sensível na cena. 

Se analisar friamente um jogo simplesmente por suas regras, ele sempre parecerá raso e superficial. O futebol por exemplo. São dois times de onze que tem dois tempos de quarenta e cinco minutos para fazer o gol. Esse jogo será sempre sobre isso, mas as dinâmicas vivas que surgem das limitações das regras simples possibilitam infinitas relações que afetam os jogadores e proporcionam emocionantes contatos entre todos os participantes. O ator não é um reprodutor de algo que se dá somente nele. Ele, como o jogador de futebol, ensaia ou treina para estar aberto ao jogo, não para reproduzir situações conhecidas. Através do jogo ele é autorizado ou permitido a ser um agente  flexível e multiplicador de novas situações em relação ao outro.

Aos poucos, enquanto o jogo é explorado, suas regras e fronteiras são reconfiguradas. Embora existam marcas, a relação passa por uma observação e escuta ao outro. E assim entender onde sensorialmente esse estímulo o afeta, em um campo muito concreto e que de modo geral se abre mão por uma falsa sensação de domínio.  O equívoco ao se trabalhar em uma cena marcada é entendê-la como um lugar cristalizado. Quando a marca surge, se esquece o caráter de jogo, e que esses balizas são móveis.  Que elas devem potencializar a relação com o outro. A marca não deve ser um caminho fechado, uma escuta seletiva que grava o primeiro estimulo emitido por outro jogador e não se percebe novas alterações. Como se houvesse uma primeira música marcada a que se fica preso, uma musicalidade inicial vinda do parceiro a qual é sempre respondida da mesma forma, sem se ouvir a nova que é produzida no momento presente. Assim, ficou mais claro que o jogo traz um grau de concentração em contato com o outro. Uma ideia de uma percepção mais aberta, uma concentração conjugada, permeável ao outro e ao acaso. Como diria Fernando Pessoa: “Sentir é estar distraído[1]”.

Manter o caráter de jogo em uma cena marcada faz-se absolutamente necessário. Entender as marcações das cenas, como elementos balizadores que tragam o participante ao presente absoluto, mas não respeitá-las de forma que o ator se torne um simples reprodutor. Encontrar, junto com o outro, formas potentes de reconfigurar através da relação, os limites dessas fronteiras, dando a elas o papel de catalizadores do acontecimento teatral. O jogo funciona como um dispositivo para a abertura. Um possível caminho de sensibilização ao momento presente. O jogo é a circunstância que engaja o ator/jogador ao próprio jogo.

A representação absolutamente autocentrada e a obrigação de simplesmente cumprir objetivos, excluem as possibilidades e fazem a cena se tornar um lugar de resolver de maneira fácil e leviana, de relações fragilizadas. Os estados emocionais são instáveis e se prender a eles de uma forma concreta na cena soa como uma armadilha atrativa. No entanto, imbuir-se unicamente de sentimentos é se fechar em si. Somente através de jogos bem estabelecidos, as ações e relações ganham o estofo necessário para deixar o ator pronto para ser afetado pelo outro e agir no desconhecido.

[1] Trecho do poema “Se eu morrer novo” escrito por Fernando Pessoa sob o pseudônimo de Alberto Caeiro.

-Strauss).

(por www.rioinformal.com/Andre Pellegrino) em 21.06.2018

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