Sentir ou não sentir

Quando Susanna Kruguer me fez o convite para estar ao lado dela e escrever sobre teatro, não imaginei que a tarefa seria tão árdua. De cara ela me coloca um grande desafio: escrever sobre o ator em cena.

Sentir ou não sentir?

Susanna abre um questionamento que me fiz nos últimos espetáculos que dirigi. Deve o ator, em cena, sentir ou não sentir? Como tudo que se refere ao teatro, acredito que é uma pergunta sem resposta. Mas penso que a reflexão sobre o questionamento é essencial e abre caminhos e possibilidades de escolha.
Cada vez mais me identifico com um teatro que flerta com a performance. Não sou um teórico, muito menos um erudito, mas enxergo performance como a ideia do espetáculo que cruza com a experiência pessoal do artista envolvido na obra. Acho que o espetáculo deve flertar com a experiência de todos os envolvidos nele. Uma cena, por conseguinte, carrega em si o universo do ator ou atriz, da pessoa responsável pela direção, dramaturgia, iluminação e tudo mais que for necessário para que a cena exista. Dessa forma, acredito que quanto mais pessoal for, mais é possível criar um estado de comunhão entre quem faz e quem vê.
            Dessa maneira, acredito que um pouco de sentimento e fisicalidade concreta traz uma carga dramática interessante. No espetáculo que fiz junto de Susanna, uma atriz (que não ela), sentava-se numa cadeira e levava um tapa. Esse tapa era um tapa de verdade, muito ensaiado para não machucar mais do que o necessário, mas muito ensaiado para que fosse um tapa e que tivesse algum machucar na ação. Essa dose de agressividade do contato forte da mão com o rosto criava um sentimento genuíno na atriz e fazia com que todo o teatro sentisse algo que ia além de qualquer fingimento.
            Entretanto, em outro momento do mesmo espetáculo, um ator falava de maneira cínica sobre sua relação com a sua família. Fingia ele diversas coisas e nessa cena passava longe de qualquer sensação verdadeira. E a cena só funcionava porque era dessa forma. O fingimento, ali, era essencial.

(por www.rioinformal.com/Daniel Belmonte) em 21.06.2018

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